Só nos resta a imprensa
Stalimir Vieira
De vez em quando se vê pelas ruas um adesivo dizendo alguma coisa como “só se faz justiça com um advogado” ou “para fazer justiça procure um advogado”. Proponho outro: “para fazer valer os seus direitos procure a imprensa.” O fato é que a imprensa é a única instituição capaz de tirar do marasmo vagabundo a burocracia oficial. Há poucos dias tive a oportunidade de comprovar na pratica essa minha convicção histórica. Fui uns dias no hospital e depois terminou sua convalescença em casa.
Passado o período de recuperação buscou o INSS para fazer a perícia que liberaria para volta ao trabalho. Foi liberado. Isso, entretanto, não basta para que o cidadão retome formalmente suas atividades profissionais. Ele precisa passar também pela avaliação de um médico da Justiça do Trabalho. Então, a surpresa: o médico da Justiça do Trabalho atestou que o cidadão não tinha condições de retornar ao trabalho. O pobre contribuinte brasileiro voltou, Antônio, ao INSS, onde reafirmaram que estava sim apto para voltar a ativa, a razão pela qual não receberia o auxílio financeiro devido pela Previdência àqueles contribuintes que não podem exercer seu trabalho por motivo de doença.
Voltou à justiça do Trabalho, onde reafirmaram que ele não poderia trabalhar, sob pena do empregador receber pesada multa se contrariasse a instrução e o empregasse ou reempregasse. Resultado: estava impedido, oficialmente, de receber salário e impedido, oficialmente, de receber a pensão paga aos incapacitados, mesmo temporariamente. Bizarro! Kafkiano! Vergonoso! Naturalmente, ao contar o caso aqui e ali, logo surgiram os profissionais da intermediação, advogados de quinta categoria, despachantes, especialistas em jeitinho brasileiro, advertindo que essas coisas chegam a levar dois anos para se desembaraçarem, mas sempre haveria uma saída por baixo dos panos. Eis o Brasil! A história me chegou aos ouvidos.
Horrorizado (pois, como já escrevi aqui, não perdi a capacidade de me horrorizar, graças a Deus), dei um jeito do assunto chegar à Rede Globo, através de um prosaico e-mail. Passaram-se alguns dias e veio a resposta. Um agradecimento pela sugestão de pauta e um pedido de que eu informasse os contatos da vítima da estupidez da burocracia nacional. Passei os dados. Foi feita a gravação e, como convém ao bom jornalismo, a outra parte também foi ouvida. E aí começa o retrato acabado do cinismo e da hipocrisia da burocracia estatal.
Ainda no mesmo dia da entrevista, antes, portanto, da matéria ir ao ar, o cidadão recebeu um telefonema aflito do INSS, como pedidos reiterados de desculpa, garantias de que teria seis meses de licença e de que tudo o que não tinha sido pago ainda seria integralmente depositado em 24 horas. E, ainda, um queixume de que não havia necessidade de procurar a imprensa... Patético! Não havia? Pois o fato é que, a partir desta denúncia (feita, repito, através de um prosaico e-mail), desenrolou-se um novelo de constatações das barbaridades que a Previdência vinha cometendo. Diariamente nos noticiários começaram a aparecer novos depoimentos de casos iguais. O jornal O Estado de S. Paulo, inclusive, denunciou que se tratava de uma política adotada pela Previdência, no sentido de barrar práticas desonestas, também muito comuns, de assalto aos cofres públicos. Esse é o problema. Como o Estado não tem competência para a fiscalização, por sua costumaz vagabundagem e sua vocação corrupta, prefere tomar decisões generalistas, sem um pingo de sensibilidade com a situação dramática que vai criar para o contribuinte honesto.
Não foi diferente quando um ministro burocrata resolveu convocar todos os aposentados a comparecerem nos postos para fazer seu recadastramento, sob pena de deixar de receber suas aposentadorias. Gente à beira da morte chegava aos postos se arrastando. Em nome dessa prática canalha, o INSS estava liberando para o trabalho, sem mais delongas, um cidadão que extirpara um tumor da cabeça e cuja atividade inclui subir em postes e mexer com eletricidade. Como o cidadão é sério e queria trabalhar não questionou a decisão. A Justiça do Trabalho, ao brecar a barbaridade, talvez lhe tenha salvo a vida. Eu estou feliz por ter ajudado a provocar o escândalo. E ter reforçado a convicção de que uma imprensa livre é o maior patrimônio da democracia. Às vezes, o único que lhe resta.
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Stalimir Vieira - Idealizador do Comunicar e Crescer
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A criação no mercado imobiliário
Edmond Midlej
Quando a Idéia 3 me convidou para trabalhar no núcleo imobiliário da agência, confesso que fiquei um pouco reticente. Criar só para construtoras? Passar o dia todo, todos os dias, fazendo só isso? Será que eu vou me acostumar?
Pensei bastante (uns 3 minutos, aproximadamente) e aceitei. Estava trabalhando em casa, era a chance de voltar ao mercado e de trabalhar com um setor em forte desenvolvimento.
Me animei, fui para a agência e, logo na primeira reunião com a equipe, as mesmas questões: será que a gente vai se adaptar? Prêmio nunca mais, né? Não vamos enjoar de tanto "predinho"?
Que nada. As respostas vieram rapidamente e nada do que a gente tinha medo aconteceu. Muito pelo contrário: o negócio tá é bom demais. Senão, vejamos: que anunciante, fora do ramo da construção civil, faz, hoje, anúncios de página dupla ou outdoor triplo? Quem contrata celebridades e paga direitos autorais de músicas famosas?
E mais: todo santo dia tem peça da gente na rua, trabalhos bonitos, mais verba e mais possibilidade de surpreender.
Minha mãe e meu pai voltaram a perguntar se aquela campanha é minha e ficam superorgulhosos quando digo que sim.
O meu salário, não vou mentir, aumentou e a minha importância também. Agora, além de fazer títulos e textos bacanas, sou constantemente convidado a opinar nas estratégias, nas datas de lançamento e até a dar pitaco na localização do stand ou na cor da parede do apartamento decorado.
Comecei na propaganda no início dos anos 90 como estagiário de produção gráfica. Aí, fui redator, virei diretor de criação e agora sou também corretor. Isso mesmo: corretor. Com muito orgulho, participo de um momento importante da nossa economia, ajudo as construtoras a venderem seus empreendimentos, ajudo a desenvolver o nosso Estado e a realizar o sonho de muitas famílias.
Quanto aos prêmios, a situação está realmente mais complicada, mas será que depois de quase 20 anos de carreira ainda preciso deles? O reconhecimento tem feito eu esquecer essa história de prêmio e, além disso, ver aquelas tarjinhas vermelhas de 100% vendido tem sido bastante recompensador.
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Edmond Midlej
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Comunicação nas empresas a partir das pessoas.
João Quadros
Divulgar não é comunicação. Apenas cumpre a função de informar. Informação é um processo passageiro, efêmero, que carece de maior consistência para que o processo de decodificação possa ser internalizado na memória da audiência.Divulgar apenas não internaliza. Somente causa um impacto momentâneo, superficial, que ficará disperso na memória da audiência, bastando que outra mensagem desperte sua atenção, logo em seguida, para que a mensagem divulgada anteriormente seja pulverizada e se perca na memória das pessoas, em pouco tempo. Comunicar é processo. Divulgar é intervenção. Comunicar tem algo a ver com vivenciar, experimentar e testar a práxis da promessa divulgada. Para que a divulgação se consolide e se transforme em comunicação demanda tempo de decantação.
Além disso, a eficácia da comunicação também depende da habilitação da sua fonte, ou seja, mais que o conteúdo divulgado, a reputação da fonte reforça a promessa e faz com que a audiência não crie parti pris e neutralize a mensagem antes até que ela seja finalizada. Uma fonte também carece de tempo para consolidar a sua imagem de confiabilidade. Por isso, ela também não será dispensada da prova de confirmação na prática do discurso, até porque as audiências já trazem consigo um ar de desconfiança diante de tantas promessas não cumpridas, fora ou dentro das empresas. Uma terceira variável torna-se fundamental para que a divulgação se consolide e resulte em comunicação: o clima de confiança prevalecente dentro do ambiente-alvo em que a comunicação é gerada e transmitida.
Não é outro o motivo da grande frustração das empresas quando percebem que a relação investimento/resposta em comunicação se comporta de forma inversa, frustrando o razionale esperado, ou seja, quanto maior o investimento na comunicação maior o recall sobre a audiência-alvo. Para que o razionale da comunicação obtenha resultados progressivos há que se investir também no comportamental dos líderes envolvidos no conteúdo a ser comunicado. Eles serão os principais veículos da comunicação, na medida em que cumpram a promessa declarada por eles mesmos, no dia-a-dia das suas ações e decisões.
Neste contexto, há que se considerar também que as pessoas tendem a processar de forma diversa as mensagens que recebem, mesmo que elas sejam divulgadas de modo padronizado e em veículos adequados. Isto porque elas decodificam as mensagens que recebem de acordo com as suas próprias convicções e interesses, até porque a incorporação da mensagem pela audiência-alvo se realiza por associações simbólicas entre os conteúdos divulgados e os padrões de valores pessoais que cada um dos ouvintes incorporam, de modo consciente ou inconscientemente. É o que os psicólogos denominam de ignorância seletiva, ou seja, um comportamento em que os indivíduos interpretam os fatos com uma visão coerente com o que lhes é conveniente. Observe-se que esta conveniência não é somente processada de modo consciente.
Carl Roger (1980) reforça este conceito quando acentua que a necessidade de manter o seu próprio conceito (self ideal) é tão forte nos indivíduos que eles negarão ou distorcerão experiências e comportamentos próprios que possam contradizer o seu autoconceito. Aliás, este mesmo fenômeno fora trabalhado por Carl Jung (1936) que o denominou de “sombra humana”, ou seja, traços da personalidade do indivíduo que, por não estarem em conformidade com o status quo da realidade consciente, são rejeitados por ele próprio a nível consciente, mas que estão incorporados na sua personalidade. Dessa forma, parece-nos fundamental que qualquer plano de comunicação interna leve em conta estas variáveis não-visíveis que norteiam o comportamento das pessoas, sob pena de sofrer ruídos constantes e incontornáveis dentro das empresas.
O próximo passo para se desenhar um plano de comunicação interna mais consistente seria mapear as “verdades” que circulam nos corredores das empresas, através das redes sociais de comunicação informal, e cotejá-las com o discurso oficial da organização. Aí está a essência para a construção de um processo de comunicação a partir das pessoas.
João Quadros é Doutor em Comunicação, Mestre em Administração de Empresas, pela American University, Especialista em Marketing, pela ESPM e Professor Adjunto da Escola Administração da UFBA.
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João Quadros
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Só nos resta a imprensa
Só nos resta a imprensa.
Stalimir Vieira
A criação no mercado imobiliário
A criação no mercado imobiliário
Edmond Midlej
Comunicação nas empresas a partir das pessoas.
Comunicação nas empresas a partir das pessoas.
João Quadros
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